
Me virei em encarei o espelho. Passei as mãos no meu vestido, contornando meu corpo, procurando por algo que ali não existia mais. Encarei a mim mesma, e notei mais algumas linhas perto dos olhos. Eu não era a mesma menina.
Passaram-se 25 anos. Concordo que não sou tão bonita quanto eu era a priori, mas algumas marcas do tempo não me incomodam, uma vez que elas não me deixam esquecer meu passado. Pierre morreu dois dias depois daquele aviso, e eu não me casei.
O vestido que estou usando, o mesmo daquele dia fatídico, acabei comprando como recordação e ele já se encontra meio amarelado, como se o branco não fosse tão branco, como se eu não fosse tão feliz. Adormeci vendo a vida passar.
- O que está fazendo? – berrou a voz fraca de mamãe.
- Nada! – disse tirando o vestido rapidamente e vestindo uma surrada roupa de trabalho.
- Você é doente! Está atrasada, fica perdendo tempo revirando suas feridas...
Aquilo me irritava... Mamãe mudou pouco desde meus 15 anos, e hoje, já com 40 anos sou uma espécie de peso para papéis aqui em casa. Finalmente adquiri uma habilidade mecânica na cozinha, sei bordar, passar e cuidar dos filhos de Anie e Clarice, abandonei o hipismo.
Com essa idade, não sirvo mais para casar, não posso freqüentar os chás sob o Lago das Niféis. Mas quem liga para essas coisas?
Sai pela porta da frente, na direção da mercearia, local que eu apelidei carinhosamente de purgatório, já que lá minhas emoções se tornavam intermediárias. Eu não tinha toda a pressão de ter mamãe por perto, me colocando para baixo, e isso me dava uma certa liberdade. Contudo, eu via os casais felizes. Mulheres segurando leques rendados, acompanhadas por esposos a tiracolo, prontos para jogar seus ternos em qualquer poça de lama que aparecesse, deixando que elas passassem ilesas. É patético, mas eu as invejava.
- Bom dia Charlotte – disse Mr. Hobes, o leiteiro.
- Bom dia Mr. Hobes, como vai? – devolvi.
Ele não deve ter escutado, pois não respondeu, estava longe demais, descendo a estrada de terra com sua bicicleta cheia de galões brancos que balançavam desafiando as leis da gravidade.
Continuei caminhando com pressa até a mercearia de papai, e ele me esperava ao lado de Juliette, filha da Srta. Smith, esposa do açougueiro. Juliette tinha seus 13 anos, era uma menina alta e magricela, tinha olhos tão azuis quanto o céu. Ela ajudava nossa família na mercearia em troca de vales para sua família.
- Olá papai! – disse, beijando suas mãos.
- Olá Charlotte – atecipou-se Juliette.
Apenas ensaiei um sorriso, acariciando seu cabelo fino.
Fui direto para o balcão atender uma cliente. Um senhora de uns 95 anos... que toda sexta-feira comprava urucum. Eu me perguntava para que tanto tempero, ela morava sozinha a pelo menos 25 anos, e não tinha amigos.
Já era quase meio dia quando Juliette me trouxe um exemplar do Pasquim Industrial. O Pasquim sempre chegava com duas semanas de atraso em Giverny, por isso era complicado até de ler suas notícias, borradas certamente com ajuda da estação chuvosa.
Uma noticia avisava sobre a construção de uma torre em Paris, capital da frança.
- Podemos ver quando estiver pronta? – disse Juliette, que acompanhava minha leitura de perto.
- Talvez... – disse sem esperança, nem entusiasmo bastante para arrancar um sorriso da menina.
Aaron entrou com um saco de milho nas costas e passou por mim sorrindo e foi direito para o deposito. Meu irmão ia se casar, para mudar um pouco as coisas. Ele já tinha 25 anos e sua noiva era uma donzela de Sainte Geneviève Lês Gasny, seu nome era Camille Delacroix.
Quando ele voltou, sua aparência e odor denunciavam que era de fato muito trabalhador. Preferir ficar longe, contando feijões em vez de ensaiar algum contato mais próximo. Entretando, foi ele que veio em minha direção, deixando uma carta amassada com um tapa na mesa.
- Pra você! – disse ele sorrindo.
- Se for novamente o peixeiro! Eu lhe mato! – disse enfurecida.
Embora eu fosse detestada pelas mulheres, algo em mim chamava atenção dos homens, principalmente daqueles que eu nunca iria me interessar. Na verdade, eu sabia que não era mais um bilhete amassado de algum idiota, tinha um papel caro, e um laço diferente, contudo preferi não esboçar interesse, eu era séria.
- Só vai saber se abrir – completou ele se divertindo ao me entregar a carta.
Coloquei a carta no avental, e voltei a minha função anterior. Contar feijões, algo que havia se tornando muito interessante se tornou um martírio. Eu queria ler a o que dizia aquela carta.
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Depois de fechar meu purgatório, dar as boas noites para Juliette, segui sozinha para casa. Meu pai e meu irmão foram de carroça, mas eu preferi ir a pé, já que planejava um pouco de privacidade. Abri a carta com uma certa violência, esperando talvez que fosse uma brincadeira mais elaborada, ou até alguma caligrafia horrível dizendo que me amava. Eu queria me enganar. Não foi desta vez.
Senhorita Charlotte Dupont,
No dia 8 de Dezembro, próximo sábado, estarei realizando um baile dançante em minha residência na Rua de La Dime, nº 68. Espero que você faça parte dessa comemoração, que celebrará meu aniversário de casamento.
Atenciosamente,
Claire Mars
Demorei alguns minutos para entender e absorver a informação. Começou a chover sem aviso prévio e eu corri para um puxadinho, peguei a carta e resolvi ler novamente. Só podia ser brincadeira.
