sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A Carta


Me virei em encarei o espelho. Passei as mãos no meu vestido, contornando meu corpo, procurando por algo que ali não existia mais. Encarei a mim mesma, e notei mais algumas linhas perto dos olhos. Eu não era a mesma menina.
Passaram-se 25 anos. Concordo que não sou tão bonita quanto eu era a priori, mas algumas marcas do tempo não me incomodam, uma vez que elas não me deixam esquecer meu passado. Pierre morreu dois dias depois daquele aviso, e eu não me casei.
O vestido que estou usando, o mesmo daquele dia fatídico, acabei comprando como recordação e ele já se encontra meio amarelado, como se o branco não fosse tão branco, como se eu não fosse tão feliz. Adormeci vendo a vida passar.

- O que está fazendo? – berrou a voz fraca de mamãe.
- Nada! – disse tirando o vestido rapidamente e vestindo uma surrada roupa de trabalho.
- Você é doente! Está atrasada, fica perdendo tempo revirando suas feridas...

Aquilo me irritava... Mamãe mudou pouco desde meus 15 anos, e hoje, já com 40 anos sou uma espécie de peso para papéis aqui em casa. Finalmente adquiri uma habilidade mecânica na cozinha, sei bordar, passar e cuidar dos filhos de Anie e Clarice, abandonei o hipismo.
Com essa idade, não sirvo mais para casar, não posso freqüentar os chás sob o Lago das Niféis. Mas quem liga para essas coisas?
Sai pela porta da frente, na direção da mercearia, local que eu apelidei carinhosamente de purgatório, já que lá minhas emoções se tornavam intermediárias. Eu não tinha toda a pressão de ter mamãe por perto, me colocando para baixo, e isso me dava uma certa liberdade. Contudo, eu via os casais felizes. Mulheres segurando leques rendados, acompanhadas por esposos a tiracolo, prontos para jogar seus ternos em qualquer poça de lama que aparecesse, deixando que elas passassem ilesas. É patético, mas eu as invejava.

- Bom dia Charlotte – disse Mr. Hobes, o leiteiro.
- Bom dia Mr. Hobes, como vai? – devolvi.

Ele não deve ter escutado, pois não respondeu, estava longe demais, descendo a estrada de terra com sua bicicleta cheia de galões brancos que balançavam desafiando as leis da gravidade.
Continuei caminhando com pressa até a mercearia de papai, e ele me esperava ao lado de Juliette, filha da Srta. Smith, esposa do açougueiro. Juliette tinha seus 13 anos, era uma menina alta e magricela, tinha olhos tão azuis quanto o céu. Ela ajudava nossa família na mercearia em troca de vales para sua família.

- Olá papai! – disse, beijando suas mãos.
- Olá Charlotte – atecipou-se Juliette.
Apenas ensaiei um sorriso, acariciando seu cabelo fino.

Fui direto para o balcão atender uma cliente. Um senhora de uns 95 anos... que toda sexta-feira comprava urucum. Eu me perguntava para que tanto tempero, ela morava sozinha a pelo menos 25 anos, e não tinha amigos.
Já era quase meio dia quando Juliette me trouxe um exemplar do Pasquim Industrial. O Pasquim sempre chegava com duas semanas de atraso em Giverny, por isso era complicado até de ler suas notícias, borradas certamente com ajuda da estação chuvosa.
Uma noticia avisava sobre a construção de uma torre em Paris, capital da frança.

- Podemos ver quando estiver pronta? – disse Juliette, que acompanhava minha leitura de perto.
- Talvez... – disse sem esperança, nem entusiasmo bastante para arrancar um sorriso da menina.

Aaron entrou com um saco de milho nas costas e passou por mim sorrindo e foi direito para o deposito. Meu irmão ia se casar, para mudar um pouco as coisas. Ele já tinha 25 anos e sua noiva era uma donzela de Sainte Geneviève Lês Gasny, seu nome era Camille Delacroix.

Quando ele voltou, sua aparência e odor denunciavam que era de fato muito trabalhador. Preferir ficar longe, contando feijões em vez de ensaiar algum contato mais próximo. Entretando, foi ele que veio em minha direção, deixando uma carta amassada com um tapa na mesa.

- Pra você! – disse ele sorrindo.
- Se for novamente o peixeiro! Eu lhe mato! – disse enfurecida.

Embora eu fosse detestada pelas mulheres, algo em mim chamava atenção dos homens, principalmente daqueles que eu nunca iria me interessar. Na verdade, eu sabia que não era mais um bilhete amassado de algum idiota, tinha um papel caro, e um laço diferente, contudo preferi não esboçar interesse, eu era séria.

- Só vai saber se abrir – completou ele se divertindo ao me entregar a carta.

Coloquei a carta no avental, e voltei a minha função anterior. Contar feijões, algo que havia se tornando muito interessante se tornou um martírio. Eu queria ler a o que dizia aquela carta.

-

Depois de fechar meu purgatório, dar as boas noites para Juliette, segui sozinha para casa. Meu pai e meu irmão foram de carroça, mas eu preferi ir a pé, já que planejava um pouco de privacidade. Abri a carta com uma certa violência, esperando talvez que fosse uma brincadeira mais elaborada, ou até alguma caligrafia horrível dizendo que me amava. Eu queria me enganar. Não foi desta vez.


Senhorita Charlotte Dupont,


No dia 8 de Dezembro, próximo sábado, estarei realizando um baile dançante em minha residência na Rua de La Dime, nº 68. Espero que você faça parte dessa comemoração, que celebrará meu aniversário de casamento.

Atenciosamente,


Claire Mars


Demorei alguns minutos para entender e absorver a informação. Começou a chover sem aviso prévio e eu corri para um puxadinho, peguei a carta e resolvi ler novamente. Só podia ser brincadeira.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A Visita




01 de Julho de 1864.


As pessoas dizem que a vida é feita de momentos aleatórios. No meu caso, ela é feita de percalços aleatórios. Meu nome é Charlotte Dupont e tenho 15 anos, moro em Giverny com meus pais, Neville Dupont e Eveline Joly Dupont, minhas irmãs Clarice, Anie e meu irmão Aaron. Por aqui sempre foi dito que não sou a filha mais bonita, e meu dote não foi dos mais altos, entretanto sou eu a primeira que vai se casar. Sim, eu vou me casar em uma semana.

O nome do meu futuro esposo é Pierre Tissot, ele tem 25 anos e é filho do general Lothair, grande amigo de meu pai. Nosso casamento foi arranjado, como seguem os costumes, porém eu o amo, e tenho certeza que teremos muitos filhos e seremos muito felizes juntos, ainda que eu só tenha o visto duas vezes. Nós trocamos cartas mensalmente e sua caligrafia denuncia uma sensualidade romântica, algo que eu certamente aprecio. Suas cartas não são perfumadas com jasmim como eu faço questão de grifar, elas vêm sujas da Dinamarca, onde ele bravamente trava uma grande batalha. Felizmente Pierre já está retornando, uma vez que o Rei Frederico VII faleceu e perderam o controle de Schleswig-Holstein para os alemães.

- Charlotte, venha me ajudar com o jantar! – disse minha mãe da cozinha, segurando Aaron com 1 braço, e o outro arrumando alguns copos decorados com desenhos de montanhas.

“Lá vamos nós!” – bufei.

Nossa família não tinha posses, porém éramos muito respeitados em toda a região. Vivíamos em uma casa grande com um lindo jardim infestado de flores de todos os tipos. Era uma casa afastada do centro, eu nunca ia pela estrada quando mamãe mandava que eu fosse buscar verduras na velha Saá. Papai sempre foi um homem muito honrado e nunca deixou faltar nada para nenhum de seus filhos e funcionários. Tínhamos uma pequena mercearia que competia com o Mercado Principal. Eu suspeitava que meu casamento tinha algo ligado a isso..

Ao chegar à cozinha, um frango morto dentro da panela cheio de penas denunciava minha próxima tarefa. O cheiro não era nada convidativo.

- Você precisa aprender a fazer um jantar espetacular para seu marido. Falando nisso, você já terminou o enxoval de crochê para Amelié?

Marquise Amelié Mona Tissot era minha futura sogra, uma víbora. Digo isso porque tenho certeza que ela conspira contra mim. Ela espalhou comentários no Mercado Municipal sobre minhas aulas de hipismo. Em Giverny qualquer comentário toma proporções catastróficas dependendo de quem o tece. Nesse caso, como Amelié tem ligações com a o presidente da associação comercial da cidade...Os dois são...

- Charlotte, o frango! - gritou mamãe com a voz esganiçada .

Continuei a depenar o frango, observando minhas irmãs brigarem na sala por uma boneca de pano. Observei com atenção e era a minha boneca de pano. Eu sempre tive de ser madura o bastante para abstrair a rebeldia de Clarice e Anie, mas eu não podia deixar que destruíssem aquela boneca, não aquela boneca. Larguei o frango descomposto na mesa e fui correndo até a sala, percebi que mamãe me observava da porta.

- Devolve! – ordenei

Sem sucesso, continuei: - Devolve, é minha!

- Não, você nem brinca com ela...

- Não interessa, é minha, sua tola, não quero que estrague!

- Não!

- Tola! Estúpida! Devolva!- gritei

- Não...

Anie jogou a boneca de pano para Clarice, que jogou novamente, brincando comigo. Impulsivamente, parti para cima delas, segurando a boneca com força. Aaron chorava alto e deixava o clima mais tenso do que realmente era, então...

- Rash!

Olhei para a metade da boneca na minha mão, sua composição espalhada no meio da sala, e minhas irmãs me olhando atentamente, elas no fundo sabiam que meus sentimentos por meus objetos pessoais eram muito fortes. Cheia de ódio, segurei o choro e saltei na direção das duas, que correram me deixando estirada no sofá.

Não precisei ouvir mamãe ordenando que eu fosse para meu quarto para subir as escadas, carregando comigo o que restara de minha única amiga. Deitei na cama, agora finalmente sozinha chorei em silêncio. Peguei no sono.

- Charlo...ttee? – Ouvi baixinho do meu lado. Acordei desorientada, sentia dor de cabeça além uma mão quente no meu tornozelo, era papai.

- Mas papai, a culpa não foi minha...

Ele me interrompeu: - Não precisa se explicar... eu posso ver o que aconteceu.

Papai sempre foi meu herói. Ele era o idealismo, ao contrário do realismo pessimista de mamãe. Eu sinceramente via nele meu porto seguro, era o único que realmente me entendia nessa casa, nessa cidade...

- Onde ela está? – Perguntei procurando com os olhos a boneca no quarto.

Ele sorriu, revelando os pés de galinha em seu rosto sofrido, quando me entregou minha boneca remendada em linha vermelha que ficou em destaque sob o tecido branco. Chorei novamente e abracei-o bem forte.

Três dias se passaram e eu estava ansiosa para que a costureira da cidade nos visitasse. Ia ser a última prova do meu vestido antes do casamento. Ele era branco, com pérolas nos detalhes da costura no colo. Tinha um desenho muito bonito, mangas longas que terminavam nas mãos como um rabo de peixe de renda.

- Ela está perfeita! – disse Juliette

- Ela engordou – endossou mamãe

Aturo os comentários de mamãe por respeito. Sinceramente, o único laço que nos une é um sobrenome, uma vez que nada do que eu faça é o bastante, nada do que eu faça é perfeito. Nada é suficiente para agradá-la. Estou casando, deixando-a como ótima reputação na região, o que mais ela quer? O que realmente ela quer?

Eu me olhava no espelho, imaginando como seria entrar descalça na igreja. Ria internamente. Na verdade, por trás de uma futura dona de casa, existia uma menina que adorava andar pelos jardins de Giverny, de preferência por cima das flores, brincando com os meninos.

- Eu... gostei! – disse hesitando, mas mamãe não deu atenção, apesar de Juliette certamente ter percebido que eu não estava feliz com o vestido. Entretanto, eu ia me casar, então preferi não fazer mais comentários sobre.

Íamos medir o comprimento do véu, quando Anie disse que tinha um homem querendo falar com papai na porta. Ele havia ido ao mercado, por isso mamãe desceu as escadas para ver do que se tratava. Continuei analisando o vestido e pedindo à Juliette, às escondidas, pequenas modificações para que meu vestido ficasse menos sério e mais moderno. Ela ria dizendo que eu era a única noiva que ela vestiu que não queria se parecer com uma princesa.

- Eu realmente não quero aparências, eu só quero amor! – desabafei.

Mamãe entrou no quarto e foi logo se sentando na cadeira mais próxima. Ela estava pálida como poucas vezes cheguei a presenciar. Corri até ela e ajoelhei ao seu lado, segurando sua mão. Juliette entortou o nariz por eu estar sujando o vestido, mas eu nem parei para pensar nesse detalhe.

- O que aconteceu? – perguntei nervosa.

Ela não conseguia falar, estava em choque.

- Por favor, diga! – supliquei sem preocupações em deixá-la mais alarmada.

- Um oficial do exército está lá embaixo, Pierre foi baleando e está à beira da morte.


Imagem: Early Morning Sunshine - Louis Ritman